quinta-feira, 19 de março de 2009

A filosofia na escola

Por: Hélcia Macedo de Carvalho Diniz e Silva *
Discutiremos questões sobre a filosofia na escola, as quais nasceram há algum tempo, em 2003, quando defendemos Uma contribuição pedagógica para o ensino de filosofia. Mas não calaram e pesquisamos atualmente sobre A teoria dos atos de fala, no mestrado. A ONG. Pe.-Mestre João do Rego Moura, que luta pelo retorno da filosofia ao ensino médio na Paraíba, apóia estes debates. As questões preliminares são:
1. O ensino de filosofia é proposta escolar?2. O que se entende por filosofia? Quais seus alcances? E no que ela pode contribuir na formação dos alunos?3. Estamos vivendo um modismo da filosofia?4. Qual o objetivo do ensino de filosofia?5. Qual a linguagem adequada para o ensino de filosofia?
Desde sempre, a filosofia desperta interesses, nos dias hodiernos ela tem estado em evidência. Muitas escolas têm filosofia como projetos de sucesso, isso se dá porque souberam implantá-la. Há outras que ainda não a tem, mas segundo diretores gostaria de tê-la. Mas obviamente, há as que não tem nem querem ter. Este quadro está prestes a mudar é que no dia 07 de julho de 2006 o Conselho Nacional de Educação (CNE) decidiu tornar obrigatórias as disciplinas de filosofia e sociologia. Aqui na Paraíba. de acordo com a lei 7.302/02, aprovada 07 de janeiro de 2003, ela é obrigatória em todas as escolas estaduais, embora a lei não seja cumprida.
Brevemente, para reflexão, apontamos como sugestões para as questões acima:
1. A filosofia como da proposta da escola: antes de colocar filosofia no currículo, cada escola deve promover discussões e amadurecimento dos objetivos dessa disciplina no projeto político pedagógico (PPP). A implantação da filosofia não surtirá bons frutos se for para satisfazer a direção, ou simplesmente para mostrar serviço. É indispensável o engajamento do educando e o fortalecimento dos docentes e de toda equipe.2. O que se entende por filosofia, quais seus alcances e no que ela pode contribuir na formação dos alunos: não há respostas prontas, talvez porque isso nem seja possível. Todavia, filosofia é a possibilidade para o pensar em sala de aula, seu alcance abre perspectivas de pontos de vista,s sobre o que é e não é novo; vai até o que está presente, desde sempre, e vê de modo diferente. Daí começar pelo o espanto, maravilha, encanto, o que provoca isso pode estar no cotidiano. A contribuição não é quantificada (percentuais), pois a filosofia contribui com o trabalho de desenvolvimento dos níveis do raciocínio crítico, reflexivo e investigativo do aluno. Eleva seu nível cognitivo, intelectual, e amplia sua visão de mundo.3. Estamos vivendo uma época em que a filosofia está na moda: algumas escolas implantaram a filosofia, com o sucesso, divulgam na mídia para atrair mais aluno. A propaganda que é "a alma do negócio" leva outras escolas a adotar filosofia no seu currículo. Daí, muitas vezes a corrida pela filosofia situar-se no âmbito mercadológico. O modismo vende a filosofia como solução para: problemas comportamentais, problemas de desenvolvimento cognitivo e etc. A implantação da filosofia, nestes termos, acarretará um grande deserviço para a comunidade, haja vista a falta de clareza de seus objetivos.4. O objetivo do ensino de filosofia: desenvolver habilidades: de investigação, raciocínio, análise, interpretação de textos filosóficos em relação à realidade para própria formação de conceitos, prezar pelo método reflexivo. Assim, gradativamente, aluno transcende a investigação filosófica para raciocinar fórmulas de matemática, contexto histórico, e desenvolve a leitura e escrita, por exemplo.5. A linguagem no ensino de filosofia: o educador trava com o educando uma conversação na qual as duas partes se entendam. O professor usa em sala de aula a linguagem para: veredictos, declarações, atos de fala, argumento e comunicado. Espera-se que o aluno, como interlocutor em posição responditiva, use a linguagem para expor suas idéias, questionamentos, atuando no debate. O professor recorre ao uso da linguagem e recursos audio-visuais como instrumento de trabalho. Pergunto: se os alunos não mais ouvem o professor e não mais aderem às propostas de ensino como fica o ensino?
A implantação da disciplina filosofia na escola deve cultivar um trabalho conjunto com a comunidade escolar. Não obstante, faz-se mister que o profissional que tenha formação filosófica. A metodologia do ensino para o pensar é específica, e tem por objetivo um problema-objeto a ser resolvido. Isso só acontece em sala de aula se o educando se engajar na proposta, ele é a principal peça para que a investigação aconteça.

_______________________________
* Bacharela e licenciada a professora Hélcia Macedo ensina filosofia no Centro de Formação Margarida Pereira da Silva, é aluna do mestrado em filosofia na UFPB, trabalhando a filosofia da linguagem em Austin A teoria dos atos de fala. Secretária-Membro da ONG. Pe.-Mestre João do Rego Moura, que luta em prol do retorno da filosofia no ensino médio.

A filosofia como tarefa

Scarlett Marton
Universidade de São Paulo (USP)

A filosofia não se identifica com um domínio específico do saber ou uma determinada área do conhecimento, por mais amplos que sejam. Tampouco se confunde com o exercício de certas habilidades ou a maestria na arte de argumentar. Ela não se define como uma reunião de teses, que fixam uma dogmática, ou um conjunto de técnicas, que estabelecem uma metodologia. Ao contrário do que supõem eruditos e epígonos, doutos e filisteus da cultura, a filosofia é – isto sim - tarefa, missão e destino. Pelo menos, é desta maneira que Nietzsche a concebe.
E a tarefa que Nietzsche reivindica para si mesmo, sua missão e destino, consiste em procurar "por tudo o que é estrangeiro e problemático na existência, por tudo aquilo que foi exilado pela moral". Mas, se ele assim se empenha em seus escritos, não é para ainda uma vez censurar, condenar ou rejeitar o que foi banido da reflexão; ao contrário, julga imprescindível justamente afirmar o que lhe trazem "suas andanças pelo proibido".
À sua tarefa, missão e destino, Nietzsche chama de filosofia do meio-dia, filosofia experimental, filosofia dionisíaca. Com a filosofia do meio-dia, ele aponta o "fim do mais longo erro". Contrapondo-se a dois mil anos de história, não admite que exista outro mundo além deste em que nos achamos; não tolera que haja outra vida além desta tal como a vivemos. Durante séculos, o pensar metafísico e o fabular cristão desvalorizaram este mundo em nome de outro imutável; depreciaram esta vida em nome de outra eterna; e fizeram do homem um ser dilacerado, composto de corpo e alma. Combatendo a metafísica e a religião cristã, Nietzsche faz ver que elas desprezam os valores em consonância com a Terra, com a vida, com o corpo. Por meio da filosofia do meio-dia, ele conta nomear uma forma de pensar que constitui o "ponto alto da humanidade".
Com a filosofia dionisíaca, Nietzsche indica que o homem partilha o destino de todas as coisas. Se o mundo não é uma criação divina e o homem não foi feito à imagem e semelhança de Deus, a relação entre eles tem de mudar. Se o apogeu da humanidade, seu meio-dia, ocorre quando caem por terra os dualismos, o homem, não mais se definindo em relação à divindade, torna-se criatura e criador de si mesmo. E, ultrapassando-se, acaba por identificar-se ao mundo. Homem e mundo não mais se opõem; agora acham-se em harmonia. Ao pretender acabar com a primazia da subjetividade, Nietzsche entende que o homem tem de deixar de colocar-se como sujeito frente à realidade para tornar-se parte do mundo. Através da filosofia dionisíaca, ele quer batizar uma forma de pensar que espelha o mundo, que traduz a vida.
E, com a filosofia experimental, Nietzsche dispõe-se a explorar o que acredita estar por vir. O niilismo, que constata em sua época, consistiria na total ausência de sentido provocada pelo esboroamento dos valores transcendentes. O niilismo radical, que antecipa, deveria antes de mais nada fazer a crítica do fundamento mesmo desses valores. Levando-o às suas últimas conseqüências, seria possível chegar à afirmação incondicional de tudo o que advém. A travessia do niilismo deve levar a uma superação – é o que Nietzsche acredita; ela tem de desembocar num gesto afirmativo, num "dionisíaco dizer-sim ao mundo, tal como é". E assim ele revela a estreita relação entre as duas vertentes de seu pensar: a face corrosiva da crítica dos valores, com a noção de valor e o procedimento genealógico, e a face construtiva da cosmologia, com o conceito de vontade de potência, a teoria das forças e a doutrina do eterno retorno.
Se Nietzsche recorre às três expressões, filosofia experimental, filosofia dionisíaca e filosofia do meio-dia, para caracterizar o próprio pensamento, lança mão de cada uma delas para enfatizar alguns de seus aspectos. Mas, com a filosofia experimental, sublinha a marca mesma do seu pensar.
Para dar-se conta da densidade de sua reflexão, é preciso freqüentar a sua obra, explorar suas tramas conceituais, conviver com suas estratégias. Libertando suas concepções das conotações metafísicas com que os intérpretes as carregaram, livrando-as da unicidade, permanência, substancialidade, fixidez, universalidade, revela-se o que o seu pensar tem de mais próprio. Põe-se em evidência seu caráter pluralista e seu caráter dinâmico, pois, é justamente graças ao dinamismo e ao pluralismo que ele se abre para o futuro.
Pluralista, o pensamento nietzschiano apresenta ao leitor múltiplas provocações. Dinâmico, a ele propõe sempre novos desafios: a crítica contundente dos valores, que entre nós ainda vigem; os ataques virulentos à religião cristã e à moral do ressentimento, constitutivas de nossa maneira de pensar; o combate à metafísica, que devasta noções consagradas pela tradição filosófica; a desconstrução da linguagem, que subverte termos comumente empregados; a tentativa de implodir as dicotomias, que desestabiliza nossa lógica, nosso modo habitual de raciocinar. E seu desafio maior consiste, por certo, no caráter experimental que reveste. Instigando a questionar sem trégua ou termo, descarta grande quantidade de preconceitos, desmascara a falta de sentido de inúmeras convicções, alivia o fardo das esperanças vãs. É certo que, ao lidar com os escritos de Nietzsche, o leitor não se arrisca a defrontar-se com textos herméticos e impermeáveis a toda abordagem. Também é certo que corre o risco de julgar, iludindo-se, apreender com justeza o que parece facilmente acessível. Mais grave, porém, é este perigo que tem de enfrentar: o de abandonar arbitrariamente a busca e apegar-se ao já conhecido, o de deter-se onde é instado a prosseguir investigando. E nada mais avesso ao espírito nietzschiano que cristalizar convicções.
Coragem e despojamento Nietzsche exige igualmente de si mesmo. Acreditando precisar de amplos horizontes para ter grandes idéias, recusa-se a conferir caráter monolítico ao texto, nega-se a pôr-se como senhor autoritário do discurso. Tanto é que não procura constranger o leitor a seguir um itinerário preciso, obrigatório e programado. E tampouco busca, com longos raciocínios e minuciosas demonstrações, convencê-lo da pertinência de suas idéias.
Nada mais distante de Nietzsche que o projeto de enclausurar o pensamento, encerrá-lo numa totalidade coesa mas fechada. Nada mais afastado de Zaratustra, seu alter ego, que o propósito de colocar a investigação a serviço da verdade, asfixiá-la sob o peso do incontestável. Zaratustra não expõe doutrinas; Nietzsche não impõe preceitos. Limitam-se - e isso não é pouco - a partilhar ensinamentos, comungar vivências. Ambos sabem que a experiência de cada um se dá de acordo com o seu feitio. Em suas vivências singulares, tanto Nietzsche quanto Zaratustra percebem os impulsos que deles se apossam, os afetos que deles se apoderam; notam as estimativas de valor que com estes impulsos se expressam e, no limite, as idéias que com estes afetos se manifestam.
Não é, pois, para um ouvinte apático, que se curva ao que lhe é dito, que Zaratustra fala; não é para um leitor conivente, que acata sem restrições o que lhe é imposto, que Nietzsche escreve. É outra a relação que contam estabelecer com seus interlocutores. Buscam quem experimenta tensões de impulsos, disposições de afetos, similares às suas, numa palavra, quem tem vivências análogas às suas. Anseiam por quem siga o próprio caminho, comprometido com o caminho que eles mesmos seguem. Mais do que problema psicológico ou questão existencial, em Nietzsche, o experimentalismo é opção filosófica. De fato, são vários os textos em que convida o leitor à experimentação, seja por entender que nós, humanos, não passamos de experiências ou por acreditar que não nos devemos furtar a fazer experiências com nós mesmos. Em Assim falava Zaratustra, ele jamais lança mão da linguagem conceitual; as posições que avança tampouco se baseiam em argumentos ou razões; assentam-se em vivências. Em Para além de bem e mal, refere-se aos filósofos do futuro como experimentadores, como os que têm o dever "das cem tentativas, das cem tentações da vida". Num fragmento póstumo, afirma ignorar "o que sejam problemas ‘puramente espirituais’". E, no Ecce Homo, obra em que se dispõe a contar-se a sua vida, fala da filosofia tal como a entendeu e a viveu. Pondo-se por inteiro como instrumento para o próprio filosofar, Nietzsche sublinha o estreito vínculo que julga dever existir entre reflexão filosófica e vivência.
Scarlett Marton é professora do Departamento de Filosofia da USP, coordenadora do GEN – Grupo de Estudos Nietzsche, editora dos Cadernos Nietzsche e autora de Nietzsche, das forças cósmicas aos valores humanos (Editora da UFMG, 2ª ed, 2000) e Extravagâncias: Ensaios sobre a filosofia de Nietzsche (Discurso Editorial, 2000), dentre outros.

Universidade Federal do Amapá
Pró-Reitoria de Ensino Superior
Curso de Licenciatura Plena em Pedagogia
Disciplina: Introdução à Filosofia
Educador: João Nascimento Borges Filho